Tenra idade, velho Terno

Apertou o nó da gravata cinza e ajeitou o terno com cuidado. Depois de três passadas de mão pelo pano, na tentativa frustada de tirar o amassado que insistia em ficar, olhou-se novamente no espelho. A aparência não era a melhor que se poderia ter, mas ele não tinha dúvidas de que era a melhor que poderia alcançar com aquela roupa emprestada de um número acima e o cabelo mal-cortado. O que o reconfortava era o fato de ter ainda vinte e cinco anos. E com vinte e cinco anos, todos possuem uma certa beleza.
Checou, então, se não estava esquecendo nada: pasta com papéis inúteis, carteira vazia, o celular no qual havia gastado todo seu último salário… Ok, parecia estar tudo ali. Sua última olhada no relógio foi assustadora: apesar de ter acordado quase duas horas antes, estava atrasado.
- “De Novo!” – exclamou sozinho olhando para o aparelho, que ele não sabia o exato porquê, mas era seu inimigo.
Alguns longos minutos e dois ônibus lotados depois, eis a chegada no local combinado. Subiu correndo as escadas, afinal, aquela altura o elevador decidira cooperar com a lei de Murphy e não chegava nunca.
Quando chegou ao sétimo andar do prédio de quase vinte, se viu cansado e suado. Mais uma ida ao banheiro e após secar-se com aqueles papéis que grudavam em todas as partes molhadas e não secavam nada, foi em direção à sala da entrevista.
- “Boa tarde.” – Desejou uma fina voz vinda do outro lado do balcão. Era uma moça artificial, com uma maquiagem carregada, unhas postiças, cabelo esticado e sem a menor vontade de que a tarde dele fosse boa. 
- “Boa Tarde.” – retrucou com um tom mais educado, afinal, ele já havia previsto que não poderia errar em nenhuma etapa da seleção. Já tinha feito aquilo tantas vezes.. Nada poderia abalar seu foco.
- “-Veio para a entrevista?”
- “-Isso!”
- “Desculpe, mas o senhor está atrasado, as entrevistas se encerraram há quinze minutos, senhor.”
Todo o sangue do seu corpo subiu para a cabeça naquele momento. E quando ele ficava estressado, canalizava tudo em algo surrealmente tolo. Então não era mais o fato de estar atrasado, de ter que subir a calça que caia a todo instante, de estar suado mesmo no ar-condicionado ou até mesmo de ter perdido a viagem. O que mais lhe irritava era a voz fina fina da atendente que insistia em chama-lo de senhor. Prometeu então em milésimos de segundos, com a cabeça baixa, que se ela dissesse mais um ’senhor’ com aquela entonação, poderia explodir aquele escritório com cheiro de mofo.
Deu algumas voltas em uma circunferência de um metro, coçou a cabeça, olhou para a atendente(que a esta altura já estava digitando novamente no computador) e toda aquela situação o fez querer chorar. Um desespero tomou conta do seu corpo. Ele nunca chorava. E esse nunca deveria ser sublinhado.
A respiração do jovem foi ficando mais ofegante, seus olhos começaram a lacrimejar involuntariamente, ele olhava para o alto e batia os pés em uma tentativa desesperada de fazer aquilo parar.
- “Mas que tolice. Você não vai chorar aqui,né?! Puta merda, você não pode nem pensar em chorar aqui.” Pensava nessas frases repetidamente.
Sentiu seu coração disparando e ficou gelado ao perceber que a secretária das unhas postiças havia parado de digitar para olhar para ele.
Correu para o bebedouro que ficava ao lado do balcão e tomou toda a água que seu corpo permitiu. E aquilo não cessava. Quando viu-se no espelhinho ao lado do computador, percebeu que estava vermelho. Nesse momento ele ouviu tudo o que não poderia ouvir:
- “Você está bem, senhor?”
Senhor?! De novo? E com aquela voz, naquele escritório?! Era demais para um jovem sem perspectivas, que ainda morava de favor em um apartamento de dois quartos em tons pastéis, no subúrbio do Rio. Não havia mais controle algum. Toda e qualquer reação que conseguiu ter foi deixar o corpo cair em uma das três cadeiras do escritório e libertar o choro preso. Um choro compulsivo, nervoso, sob o qual ele não tinha menor controle.
A mulher da voz fina finalmente se calou, com os olhos arregalados, ficou estática observando o espetáculo da sua cadeira.
Após quase dois minutos interminavéis, o choro começou a dar sinais de desistência. Com um alívio quase inexplicável, o corpo agora mais leve foi se levantando devagar. O único gesto que conseguiu fazer para a atendente foi um sorriso(que nem mesmo ele entendeu).
- “Desculpa, senhor, mas o senhor Dovanelles pediu para que eu fizesse uma pré-seleção daqui mesmo. Nem o brinco o senhor tirou para a entrevista…”
Outro sorriso sem explicação saiu de seus lábios. Esse mais intenso e com menos sentido ainda.
- “O brinco?!”. Riu novamente.
Sem mais nenhuma palavra, voltou andando lentamente. Não passou no banheiro para lavar o rosto inchado e vermelho. Esperou calmo por longos minutos o elevador e caminhou pelas ruas lotadas daquele centro quente. Já não havia mais com o que se preocupar. Após todo o estresse de dias por aquela entrevista, era o pequeno brinco e não seus erros ou defeitos que o tiraram uma oportunidade de levar uma vida medíocre com um salário mais medíocre ainda.
Foi quando se deu conta que não precisava tirar o brinco. precisava sim – e com urgência – tirar aquele terno que nunca pertenceu (nem nunca pertenceria) a ele. Em um ímpeto, imaginou-se em uma cena de cinema: arrancando aquela roupa no meio da multidão, rasgando e pisoteando aquele símbolo da hipocrisia, aquilo que o disfarçava de si mesmo… Quando lembrou que não poderia, o terno era emprestado.

~ por Marina Meira em Julho 17, 2008.

2 Respostas to “Tenra idade, velho Terno”

  1. Gostei muito. Parabéns!
    Voltarei com certeza.

  2. Amei o novo filho, parabéns!
    Amo ler o que você escreve!
    Beijos

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