- CENA 3: PORTA DO CONSULTÓRIO.
Clarissa abre a porta e cumprimenta Virna, que chega ao seu consultório aos prantos.
Clarissa: Ora, Virna, de novo?
Virna: Ai,doutora, eu não aguento mais…
Clarissa: Qual é o novo amor da sua vida para todo o sempre, Virna?
Virna: Eu desisti dos amores, doutora!
Clarissa: Deisistiu?! Logo você?! A maior defensora do sexo com amor, do romantismo à moda antiga…
Virna: É, doutora. Acontece que todas as minhas amigas que não defendm o amor fazem muito mais sexo que eu.
Clarissa: Defina muito mais sexo.
Virna: MUITO mais sexo!
Clarissa: hum - Faz anotações.
Virna(controlando o choro): Eu vivo em um eterno Hamelet. Ser ou não ser puta. Eis a questão! Dar ou não dar, eis a merda da questão.
Clarissa: Você deve seguir seus extintos. Se libertar sem desrespeitar suas verdades.
Virna: Sabe o que acontece, doutora? Sabe?! Acontece que isso me tá me deixando maluca! Toda vez que eu conheço algum cara, eu respeito meus limites. E meus limites não estão me ajudando muito. Por culpa dos meus limites eu estou há 8 meses sem saber o que é uma boa foda! Eu disse 8 meses! Continua fácil pra você falar em limites?
Clarissa(ajeitando-se na cadeira): Olha…
Virna: Olha nada(levanta-se do divã). Olha você. Presta bastante atenção! Eu estou surtando. Coisas que nem seu amigo Freud poderia explicar… Aliás, Freud era um mal-comido, cá entre nós. Como pode um ser passar anos da sua vida escrevendo sobre neuroses de sexo?! Meu bem, se ele estava escrevendo ele não estava praticando! E como eu posso acreditar em alguém que estudou anos sobre um o comportamento sexual em livros de alguém que não comia na-da?!
Virna dá uma volta no consultório e volta-se para Clarissa(assustada em sua cadeira).
Virna: E mais!! Como você pode me dizer para seguir meus extintos e respeitar meus limites?! São coisas completamente opostas. Completamente… Imagina só você que eu cresci lendo a bíblia. Que eu cresci ouvindo da minha mãe que eu não podia dar para qualquer um. E quem vem a ser qualquer um? Eu quero é que me apresente a esse qualquer um, porque do jeito que ele é mal falado,com certeza come beemm! (Virna tira os óculos e solta o cabelo).
Virna Continua: Você sabe porque a sociedade está surtando?! Eu explico! Porque nos filmes e nas revistas você só vê pessoas bem comidas. De pele boa. Afirmando que sexo é a melhor coisa do mundo e que o orgasmo é sensacional. E o que dizer então se você não atinge o orgasmo, não tem uma pele boa e não é bem comida? Eu passo horas escutando que devemos nos abrir. Abrir é uma ova! Eu faço todo aquele charme, espero meses de namoro pra dar. E no dia seguinte escuto de uma especialista como a senhora que transar no primeiro encontro não é pecado! (silêncio, Virna faz cara de inconformada e berra): Como assim não é pecado?!
Clarissa levanta-se da cadeira e dá uma volta pequena confusa.
Virna aproxima-se dela e a puxa pelo braço: Me diz uma coisa, doutora. Por favor, me salva. Você que ganha sua vida falando sobre sexo. A senhora dá no primeiro encontro?
Clarissa senta-se no divã do paciente atônita: Eu dei uma vez!
Virna(sentando-se na cadeira da médica): uma vez?!
Clarissa: É… eu não sou muito de dar não, sabe?! Na verdade eu nunca soube aplicar muito bem todas essas teorias na prática. Me enrolo toda. Ih, essas posições do Kama Sutra eu não consigo fazer nem um terço, E rio em todas elas!
Virna: Ri?
Clarissa: É. Eu tenho um problema sério com a luxúria. Acho tudo tão avançado pra mim. Fico feliz quando encontro um cara que só quer papai-e-mamãe. De preferência com pinto pequeno. Não sei quem inventou que tem que ser grande e grosso! Acho que eu tenho trauma. Uma vez fiquei quatro dias sem andar direito depois de uma transa com um desses super dotados… Fora essas fantasias todas. Eu tive um namorado desses gostosões que acham o máximo fazer strip. Menina, ele terminou comigo depois da tercera tentativa de foda. É que em todas eu tive um ataque de riso quando ele começava a rebolar pra tirar a calça. Ai,não… olha só, vou rir… Não consigo, me dá ataque só de lembrar.
(As duas riem juntas).
Virna: AI ai…E grupais?
Clarissa: Outra coisa que eu não consigo entender. Uma vez um namorado meu insistiu loucamente. Até que ele arrumou uma amiga dele, porque eu jamais pediria a uma minha, por mais que achasse uma delas gostossérima. Mas enfim. Eu estava quase convencida de que seria ótimo por todas as experiências que eu tinha de histórias aqui do consultório.
Virna: Jura? Muita gente faz grupal e te conta?
Clarissa: Você não faz idéia. As vezes eu acho que o mundo é uma suruba disfarçada de Terra. Mas depois dessa experiência comecei a ter ceteza: meus pacientes devem mentir horrores pra mim. Ah,claro eles devem mentir para eles mesmos. Afinal, me pagam rios de dinheiro, alguma novidade boa têm que trazer pra mim toda semana…
Virna: Verdade. Sabe aquela minha história do banheiro da faculdade?
CLarissa: Claro. Foi uma revolução sua!
vIrna: Então… Era mentira!
Clarissa: Como???
Virna(passando para o lado dela na cadeira do divã): Mentira, ué. Na verdade escutei de uma amiga minha, achei o máximo e repassei!
Clarissa: Pior que era boa mesmo. Até me deu vontade de voltar a estudar.
Virna: Menina e não é?! Pior que depois eu descobri que era invenção dela também! Ela também tinha escutado de uma amiga. Praticamente uma lenda urbana. todo mundo têm uma história mirabolante de sexo que escutou de alguém e se apropriou.
Clarissa: Verdade, todo mundo…
(silêncio. As duas encaram a platéia com ar acusador)
Virna: mas então, conclua sua experiência grupal.
Clarissa: Ah sim. Ele escolheu uma amiga super sexy, a Lara. Lara era um espetáculo. Eu que sempre tive a certeza que não gostava de mulher comecei a achar que gostava por causa de Lara! Daí no início todos queriam fingir que eram liberais, mas a verdade é que estava todo mundo nervoso pra caralho. Aí conversa vai, conversa vem. Vinho vai, vinho veeem… Estavamos na cama! E eu não sabia onde pôr a mão. Não sabia pra onde olhar. Não sabia a hora de pegar no pau dele ou no peito dela, em que buraco me enviar… Uma loucura! Se for assim com todo mundo, quero desmascarar a farsa do sexo grupal na sociedade. Não é possível que um número significativo da população se divirta daquela maneira.
E o pior: A culpa depois! eu achava que todas as pessoas do mundo tinham descoberto o que eu tinha feito na noite anterior. Entrei em neurose! Esbarrava com um conhecido e fazia de tudo para provar que eu não tinha feito o que ele nem imaginava que eu tinha feito. Minhas conversas passaram a ser todas um jogo de detetive. Eu tinha que despistar todos dequalquer maneira. Se alguém me contasse que explodiram uma bomba nos EUA, eu afirmava que sexólogo tinha que fazer pesquisas práticas também, mas que era da profissão… Fique com fama de louca!
Virna: Nossa…
Clarissa: Tá achando que pra sexólogo tudo é fácil? Imagina… Primeiro que quem transa com sexólogo jura que vai ter a melhor foda da vida. E o sexólogo não vai pra cama com quase ninguém porque sabe que vai ter que dar a melhor foda da vida daquele ser infeliz, que só está com você achando que seu sexo é fenomenal! Segundo que ensinar pra virgem que sexo é legal depois de toda a dor que a coitadinha sentiu na primeira tentativa é complicado! E por incrível que pareça, elas ainda são muitas. Terceiro e não menos importante, tratar de moleque tarado que só aceita vir ao meu consultório porque acredita que um dia vai comer a doutora aqui.
(Virna olha para o relógio.)
Clarissa: meu tempo acabou, né?!
Luzes se apagam.
Mais Sexo, Menos Nexo
•Julho 27, 2008 • Não Há ComentáriosTenra idade, velho Terno
•Julho 17, 2008 • 2 ComentáriosApertou o nó da gravata cinza e ajeitou o terno com cuidado. Depois de três passadas de mão pelo pano, na tentativa frustada de tirar o amassado que insistia em ficar, olhou-se novamente no espelho. A aparência não era a melhor que se poderia ter, mas ele não tinha dúvidas de que era a melhor que poderia alcançar com aquela roupa emprestada de um número acima e o cabelo mal-cortado. O que o reconfortava era o fato de ter ainda vinte e cinco anos. E com vinte e cinco anos, todos possuem uma certa beleza.
Checou, então, se não estava esquecendo nada: pasta com papéis inúteis, carteira vazia, o celular no qual havia gastado todo seu último salário… Ok, parecia estar tudo ali. Sua última olhada no relógio foi assustadora: apesar de ter acordado quase duas horas antes, estava atrasado.
- “De Novo!” - exclamou sozinho olhando para o aparelho, que ele não sabia o exato porquê, mas era seu inimigo.
Alguns longos minutos e dois ônibus lotados depois, eis a chegada no local combinado. Subiu correndo as escadas, afinal, aquela altura o elevador decidira cooperar com a lei de Murphy e não chegava nunca.
Quando chegou ao sétimo andar do prédio de quase vinte, se viu cansado e suado. Mais uma ida ao banheiro e após secar-se com aqueles papéis que grudavam em todas as partes molhadas e não secavam nada, foi em direção à sala da entrevista.
- “Boa tarde.” - Desejou uma fina voz vinda do outro lado do balcão. Era uma moça artificial, com uma maquiagem carregada, unhas postiças, cabelo esticado e sem a menor vontade de que a tarde dele fosse boa.
- “Boa Tarde.” - retrucou com um tom mais educado, afinal, ele já havia previsto que não poderia errar em nenhuma etapa da seleção. Já tinha feito aquilo tantas vezes.. Nada poderia abalar seu foco.
- “-Veio para a entrevista?”
- “-Isso!”
- “Desculpe, mas o senhor está atrasado, as entrevistas se encerraram há quinze minutos, senhor.”
Todo o sangue do seu corpo subiu para a cabeça naquele momento. E quando ele ficava estressado, canalizava tudo em algo surrealmente tolo. Então não era mais o fato de estar atrasado, de ter que subir a calça que caia a todo instante, de estar suado mesmo no ar-condicionado ou até mesmo de ter perdido a viagem. O que mais lhe irritava era a voz fina fina da atendente que insistia em chama-lo de senhor. Prometeu então em milésimos de segundos, com a cabeça baixa, que se ela dissesse mais um ’senhor’ com aquela entonação, poderia explodir aquele escritório com cheiro de mofo.
Deu algumas voltas em uma circunferência de um metro, coçou a cabeça, olhou para a atendente(que a esta altura já estava digitando novamente no computador) e toda aquela situação o fez querer chorar. Um desespero tomou conta do seu corpo. Ele nunca chorava. E esse nunca deveria ser sublinhado.
A respiração do jovem foi ficando mais ofegante, seus olhos começaram a lacrimejar involuntariamente, ele olhava para o alto e batia os pés em uma tentativa desesperada de fazer aquilo parar.
- “Mas que tolice. Você não vai chorar aqui,né?! Puta merda, você não pode nem pensar em chorar aqui.” Pensava nessas frases repetidamente.
Sentiu seu coração disparando e ficou gelado ao perceber que a secretária das unhas postiças havia parado de digitar para olhar para ele.
Correu para o bebedouro que ficava ao lado do balcão e tomou toda a água que seu corpo permitiu. E aquilo não cessava. Quando viu-se no espelhinho ao lado do computador, percebeu que estava vermelho. Nesse momento ele ouviu tudo o que não poderia ouvir:
- “Você está bem, senhor?”
Senhor?! De novo? E com aquela voz, naquele escritório?! Era demais para um jovem sem perspectivas, que ainda morava de favor em um apartamento de dois quartos em tons pastéis, no subúrbio do Rio. Não havia mais controle algum. Toda e qualquer reação que conseguiu ter foi deixar o corpo cair em uma das três cadeiras do escritório e libertar o choro preso. Um choro compulsivo, nervoso, sob o qual ele não tinha menor controle.
A mulher da voz fina finalmente se calou, com os olhos arregalados, ficou estática observando o espetáculo da sua cadeira.
Após quase dois minutos interminavéis, o choro começou a dar sinais de desistência. Com um alívio quase inexplicável, o corpo agora mais leve foi se levantando devagar. O único gesto que conseguiu fazer para a atendente foi um sorriso(que nem mesmo ele entendeu).
- “Desculpa, senhor, mas o senhor Dovanelles pediu para que eu fizesse uma pré-seleção daqui mesmo. Nem o brinco o senhor tirou para a entrevista…”
Outro sorriso sem explicação saiu de seus lábios. Esse mais intenso e com menos sentido ainda.
- “O brinco?!”. Riu novamente.
Sem mais nenhuma palavra, voltou andando lentamente. Não passou no banheiro para lavar o rosto inchado e vermelho. Esperou calmo por longos minutos o elevador e caminhou pelas ruas lotadas daquele centro quente. Já não havia mais com o que se preocupar. Após todo o estresse de dias por aquela entrevista, era o pequeno brinco e não seus erros ou defeitos que o tiraram uma oportunidade de levar uma vida medíocre com um salário mais medíocre ainda.
Foi quando se deu conta que não precisava tirar o brinco. precisava sim - e com urgência - tirar aquele terno que nunca pertenceu (nem nunca pertenceria) a ele. Em um ímpeto, imaginou-se em uma cena de cinema: arrancando aquela roupa no meio da multidão, rasgando e pisoteando aquele símbolo da hipocrisia, aquilo que o disfarçava de si mesmo… Quando lembrou que não poderia, o terno era emprestado.
